- É que já deu a hora.
- De que?
- De ele aparecer por aqui.
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Cabeças e corações do século vinte e um já aprenderam que não há sentido ao assoprar palavras, outrora até vomitar. Àqueles ansiados dias por declarações madrugaram com a teimosia e o orgulho. Todo mundo teme. Temo eu a amar e demonstrar. Não temo as palavras, por que pra mim ainda fazem sentido, principalmente nas madrugadas sombrias de mim. Na relutância contra o sono e tua presença constante, tenho sido obrigada a levantar e despejar todo o meu interior em meras linhas. Tarde demais. É o que dizem quando se esconde um carinho especial, o broto de um amor. Tarde demais também diz o relógio, quando clareio o dia ligada a você. Tarde demais eu me dedicar a lhe escrever se nem eu sei ao menos o que sinto por você.
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Eu costumava engolir as lágrimas, inalar o perfume e ainda roubar um sorriso para usá-lo. Era eu o tempo todo, dentro de mim, em uma luta constante, decidida a me calar; calar a minha voz e coração. Havia linhas de diversas as cores e tamanhos, linhas que não mantinham a mesma direção já que não havia um corte sequencial. Pedaços, buracos, podridão. Tudo isso dentro de um pobre coração. Chovia durante o dia e os trovoes e raios brigavam durante a noite. De costume já tinha se tornado rotina e se tornara normal o barulho incensante. Era e ainda é. São tempo difíceis pra mim, e ainda há muitos por vir. É desgastante falar e não dizer nada. Ainda é difícil viver de encenação, já que desde sempre, o teatro nunca me despertou interesse, paixão, sei lá, essa coisa de adoração. Mas, de rejeição cheguei a fantasiar e ocupar o papel da protagonista da minha vida, dos tempos difíceis. Ah, deles eu já disse, mas, é que a dificuldade permanece. Tenho essa insistência impregnada a esperança que carrego. Parando pra analisar a situação, nota-se que há tanto descaso dentro de mim, e olha que sempre culpo aos que me rodeiam. Patético! O problema é continuar na mesmice do meu eu. Fantasiar mudanças e não lutar contra o sono pra haver disposição para o dia seguinte. E quer saber? Já estou acostumada a esperar pela madrugada, encontrar o silêncio e expor a minha dor. E que nas madrugadas seguintes, o sono me vença e leve-me ao mundo irreal, porque nos tempos difíceis, a gente precisa se obrigar a sonhar, ou, pelo menos eu.
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Veja bem, adorável e bem-vinda madrugada, já lhe contei dos teus encantos? Ou, já ouvistes de seus amantes, suas declarações? Ora pois, vejo espalhados por ai, por aqui teus fiéis admiradores. Eu, por exemplo, me coloco diante a ti, ainda que em tua ausência e aos meus anseios já lhe faço companhia. Lhe admiro pela quietude. Junto a ti, recolho os pensamentos à toa, junto com a minha fértil imaginação, agarrada ao clima - ainda que variado - proponho-te desejos do coração. Sei que ficamos a sós e ainda que sejas agradável, és quieta e teu silêncio me incomoda. Não lhe desmerecendo, mas, porque não fazemos um convite a ele? Não sei se seria uma boa ideia, confesso, mas, haveria monossílabos em meio a tanto zumbido. Quando o vento soprasse o teu frio, ele me aqueceria em teus braços, e o calor, bom, chegaríamos aos quarenta graus. Me intriga falar dele, me deixa até apreensiva. Ele têm vários nomes e nenhum deles me pertenceu; só se apresenta e permanece no meu sub-consciente. Me perturba dia e noite, me inferniza nas madrugadas. Me desperta, me arranca a concentração e me deixa perdida. Vejo que teu nome está mais pra o meu próprio ser. Não há um nome, não há você e muito menos ele. Há muito de mim em uma longa viagem sem ponto de chegada. Saí em busca, vagando pela madrugada a companhia de um abraço, lábios úmidos, pele seca, respiração ofegante, corações descompassados, saí em busca de um ser inexistente que se faz presente e me acompanha na silenciosa madrugada.
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